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A comunidade científica, com reuniões como a da SBPC e programas nacionais como a Semana Nacional de C&T, aguarda a contribuição de Marcos Pontes
Henrique Lins de Barros é pesquisador titular do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas (CBPF/MCT). Artigo escrito para o caderno “Prosa e Verso” de “O Globo”:
Marcos Pontes, o primeiro astronauta brasileiro, retornou do espaço. A viagem espacial está longe de ser uma viagem de turismo. Ela foi precedida por um intenso período de treinamento, com acompanhamento de equipes brasileiras de técnicos altamente qualificados.
Diante de qualquer feito com grande repercussão surgem vozes de protesto. Tanto dinheiro gasto para um passeio no espaço? Não seria mais útil e produtivo investir os recursos no desenvolvimento de pesquisas?
Mas a ciência não se faz só nos gabinetes e laboratórios. A contribuição científica não é somente voltada para o desenvolvimento de tecnologias que serão despejadas numa sociedade ávida em consumir novos produtos.
A ciência é um patrimônio cultural que contribui para a compreensão do mundo em que vivemos e nos dá uma identidade.
Um país precisa fazer uma reflexão sobre a sua sociedade e ser capaz de gerar um conhecimento que saia do ambiente acadêmico e se espraia na sociedade.
Neste momento em que o Brasil está comemorando o centenário do primeiro vôo homologado da história é impossível deixar de lembrar alguns fatos ligados à invenção do vôo controlado.
Curiosamente o Brasil tem um papel central nesta descoberta.
Em 1709, Bartolomeu de Gusmão, um brasileiro, fez demonstrações com um pequeno balão de ar quente diante da corte de D. João V, em Lisboa.
Foi a primeira vez que um artefato construído pelo homem realizava um vôo sustentado. A demonstração não deu os frutos desejados. A divulgação de desenhos fantásticos fez com que a contribuição do brasileiro caísse na galhofa.
Em 1901, Alberto Santos Dumont, no dirigível nº 6, fez um vôo de 11 km, contornando a torre Eiffel, em Paris, e retornando ao ponto de partida. Provava que era possível dirigir um aparelho voador.
Em 1903 Santos Dumont fez novos vôos impressionantes. Quando Santos Dumont chegou ao Brasil, em 7 de setembro de 1903, no meio das comemorações ouviam-se vozes que questionavam os seus feitos.
"Santos Dumont sem o seu balão é Dante sem Beatriz,... A mágoa de vê-lo chegar ao Brasil sem balão não é minha: é nacional".
Há exatos cem anos, em 23 de outubro de 1906, Santos Dumont no 14bis atingiu a marca de 60 metros em pleno o ar. Em 12 de novembro voou 220 metros.
O avião acabava de ser inventado e viria mudar por completo a história do século XX. A partir de 1910, dedica-se à divulgação do vôo, transformando o avião num aparelho capaz de mudar a geografia do mundo.
No Brasil as críticas: quem é esse brasileiro que se recusa a voar no Brasil? Mas como voar num país sem uma tradição tecnológica desenvolvida? Estas críticas ignoravam as grandes contribuições de Santos Dumont.
O Brasil produz ciência da mais alta qualidade em diferentes campos. Mas as pessoas não sabem. Faltam recursos? Sem dúvida. E muito, para que a nossa ciência possa crescer e contribuir para a melhoria da sociedade.
Mas falta gente: pesquisadores, tecnólogos, técnicos, administradores, para que se possa fazer uma ciência que dê conta das necessidades nacionais.
A viagem de Marcos Pontes mal começou. Agora, com os pés no chão, ele terá que iniciar a segunda fase, contribuindo para a divulgação da ciência em nosso país.
Com isso ele auxiliará no esforço de se construir uma sociedade alfabetizada cientificamente, capaz de escolher o caminho que deseja diante das inúmeras possibilidades que as tecnologias anunciam e evitando os problemas graves que estas mesmas tecnologias oferecem.
A comunidade científica, com reuniões como a da SBPC, e programas nacionais como a Semana Nacional de C&T, aguarda a contribuição de Marcos Pontes.
E os governos e empresários talvez se dêem conta da importância da ciência e tecnologia na moderna sociedade brasileira. Não como produtora de bens efêmeros de consumo, mas como um patrimônio cultural essencial para o desenvolvimento do país.
(O Globo, 15/9)
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