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Qualquer reflexão que se faça sobre o nível de cobertura da imprensa brasileira em relação ao efeito estufa deve considerar alguns aspectos importantes. A ciência do clima é nova, complexa, multidisciplinar, e toda a credibilidade do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) da ONU reside no fato de que nele estão reunidos cientistas do mundo inteiro, representando diferentes áreas do conhecimento (meteorologistas, hidrólogos, oceanógrafos, biólogos, químicos, físicos etc...). Modelos matemáticos de alta complexidade são utilizados no cruzamento dos dados que revelam os estragos causados pelas emissões de dióxido de carbono e suas conseqüências para o planeta. Ainda que o Painel não seja preciso ao mensurar a parte exata que cabe à humanidade no aquecimento global, não há dúvida de que existe uma relação direta entre o efeito estufa e a ação do homem. Para alguns veículos de comunicação, no entanto, a impossibilidade de precisar em que medida somos culpados pelas mudanças climáticas serve de álibi, e o tratamento dispensado ao assunto perde densidade. Relega-se à categoria de hipótese o que os cientistas consideram fato; ou seja, todas as previsões catastróficas para um planeta cada mais saturado de gás carbônico poderiam dar em nada. A linha editorial que decorre dessa interpretação sugere a perspectiva do erro de que os cientistas tenham superestimado a responsabilidade do homem no processo, sendo o efeito estufa mais um capricho da mãe natureza. Ao vetar a participação dos Estados Unidos no Protocolo de Quioto, o presidente George W. Bush seguiu essa linha de raciocínio, rechaçada categoricamente pelo Painel da ONU, presidido, aliás, por um americano.
Quando o assunto é aquecimento global, qualquer tentativa de síntese - e o jornalismo é a arte da objetividade - requer cuidados. De um lado, é preciso evitar as simplificações e generalizações, que trabalham em favor da forma em prejuízo do conteúdo. De outro, é fundamental alertar a sociedade para a gravidade da situação sem cometer o pecado do sensacionalismo e sem explorar de modo irresponsável as previsões catastróficas dos cientistas. Talvez seja esta a razão pela qual alguns cientistas tenham tanto desprezo pela mídia, sem contar os que evitam deliberadamente contato com a imprensa. Teme-se que a falta de informações do jornalista em relação ao assunto comprometa o rendimento da entrevista e o subseqüente entendimento do público. Estarão eles errados?
Em alguns países da Europa, nos Estados Unidos e na Argentina, os estudantes de jornalismo podem completar a formação básica com um curso de especialização na área de meio ambiente, ou em outra qualquer de sua predileção. Isso significa que antes de ingressar no mercado de trabalho o profissional de imprensa terá incorporado ao seu estoque de informações um conhecimento específico que lhe será útil na carreira.
Os jornalistas brasileiros que se interessam por meio ambiente buscam a especialização, via de regra, por conta própria, muitas vezes sem o apoio da empresa à qual estão vinculados. Esta é uma área do conhecimento que ainda se ressente de cursos, literatura e eventos que capacitem e estimulem o profissional de imprensa a realizar um trabalho mais consistente. Nas próprias redações, meio ambiente não tem status de editoria. Tudo o que acontece nessa área está sob a alçada da editoria de Ciência. Os setoristas de meio ambiente costumam ser informalmente delegados para esta função por razões meramente circunstanciais, ou porque têm afinidade com o assunto e fazem questão de sinalizar isto para as chefias, ou porque se destacaram na cobertura de uma tragédia ambiental qualquer e passaram a ser requisitados para todas as outras. É curioso observar que na área de economia, por exemplo, a oferta de cursos especialmente criados para jornalistas é bastante generosa. Somente no Rio de Janeiro, a Fundação Getúlio Vargas, a Bolsa de Valores e a Associação Brasileira dos Analistas de Mercado de Capitais (Abamec) oferecem cursos regulares para os setoristas de economia. Eles se familiarizam rápido com o jargão, descobrem novas e importantes fontes que alimentarão as redações de notícias quentes, e cumprem, com boa margem de acerto, a missão de bem informar o público a respeito do dia-a-dia da economia. Talvez este seja um dos fatores que propiciam ao Brasil a condição de ter um dos mais sofisticados mercados financeiros do mundo. Em economia, como em qualquer outra área, a informação é uma ferramenta importante na geração de riqueza e prosperidade.
Para facilitar o trabalho dos jornalistas interessados em meio ambiente, a Federação Internacional dos Jornalistas Ambientais (International Federation of Environmental Journalists-IFEJ), instituição fundada em 1993, com sede na França, tem na internet (www.ifej.org ) um questionário com 22 perguntas dirigidas aos profissionais de imprensa, com o objetivo de verificar o nível de informação, as fontes, e as maiores deficiências de quem se propõe a abrir espaços na mídia para os assuntos de meio ambiente. A participação é livre e os resultados serão apresentados no próximo encontro internacional do IFEJ, no Cairo, entre os dias 13 e 19 de novembro. O objetivo do questionário é definir uma estratégia de apoio a estes profissionais através de cursos, publicações e seminários. As mudanças climáticas são o assunto de um capítulo do livro Cidadania Planetária – Temas e Desafios do Jornalismo Ambiental, uma compilação de assuntos invariavelmente presentes na mídia, nem sempre com a devida competência. O livro editado pelo IFEJ tem 221 páginas e pode ser adquirido gratuitamente aos que remeterem o pedido pela internet.
É possível que na maioria das redações, onde boa parte dos jornalistas ainda desconhece a complexidade dos assuntos de meio ambiente, em especial aqueles referentes ao efeito estufa, as mudanças climáticas ainda sejam um assunto periférico. Talvez por isso, o fracasso da Conferência do Clima em Haia, no fim do ano passado, tenha justificado um espaço quase medíocre na mídia, se comparado com o espaço dos jornais e o tempo da cobertura televisiva de americanos e europeus. Mas o veto do presidente norte-americano George W. Bush ao Protocolo de Quioto determinou uma nova etapa na cobertura do efeito estufa no Brasil e no mundo. A radicalidade do gesto norte-americano e suas implicações no cálculo das emissões globais de gás carbônico; o risco iminente de o protocolo não ser cumprido; e a reação do mundo, em especial dos países europeus, ao veto americano, potencializaram o interesse sobre o assunto, oferecendo novas e amplas perspectivas de cobertura. Ótimo. Mas continuamos tímidos e pouco criativos na abordagem do problema. Um dos nossos desafios é contextualizar o efeito estufa, aproximá-lo da realidade brasileira quando, por exemplo, discutimos o aumento do desmatamento da Amazônia. Ou quando cobrimos a crise de energia. As mudanças no ciclo hidrológico, o programa de incentivo à construção de novas termelétricas, Angra 3, formas alternativas de geração de energia...Tudo isso se presta a uma análise diferenciada à luz das emissões de dióxido de carbono do Brasil. É quase desprezível o espaço na mídia para a confecção do Inventário Ambiental, um trabalho capitaneado pelo Ministério da Ciência e Tecnologia em parceria com diversos institutos de pesquisa com o objetivo de construir um conhecimento a respeito das emissões de CO2 no Brasil. É igualmente medíocre o espaço reservado a pesquisas como a desenvolvida pelo Instituto de Botânica de São Paulo que em parceria com a Universidade Federal de Viçosa (MG), pretende verificar o potencial de absorção de CO2 de mudas de árvores brasileiras, a fim de incrementar o seqüestro de carbono da atmosfera. Seguem sem apelo nos veículos de comunicação as discussões sobre a Agenda 21 que ocorrem em várias cidades brasileiras, nas quais são definidas estratégias de desenvolvimento sustentável que alcançam também a geração de energia. A Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças do Clima estabelece no artigo 4, parágrafo 3, o compromisso dos países em desenvolvimento, entre os quais o Brasil, de "promover e cooperar na educação, treinamento e conscientização pública em relação à mudança do clima e estipular a mais ampla participação nesse processo". A realização desse compromisso depende basicamente do apoio da mídia. Há muito o que fazer.
André Trigueiro ( jornalista, redator e apresentador da série Planeta Estufa exibida no Jornal das Dez da Globonews no mês de janeiro, aluno do curso de Pós-Graduação em meio Ambiente das COPPE/UFRJ)
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