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Planeta Estufa

Neste exato momento, a 20 quilômetros de altura, sem que possamos observar a olho nu, uma extensa rede de gases se avoluma na atmosfera em quantidades que vêm preocupando os cientistas. De acordo com o mais recente relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças do Clima, da ONU, o atual nível de emissão de CO2, ou díóxido de carbono, na atmosfera causará profundas mudanças no planeta neste século. A queima de petróleo, carvão mineral e gás, além das queimadas e incêndios florestais, produz aproximadamente sete bilhões de toneladas de carbono por ano. Apenas quatro bilhões são "metabolizados" pelas florestas e oceanos. A natureza não dá conta dos outros três bilhões, que vão reforçando lenta e perigosamente uma espécie de couraça na atmosfera. É essa couraça que impede a dispersão do calor causado pelos raios de sol que atingem a Terra.

De acordo com os 1.500 cientistas de 120 países que integram o painel da ONU, nos próximos cem anos o efeito estufa elevará a temperatura média do planeta em três graus centígrados e aumentará o nível dos mares em meio metro. O suficiente para que 30 países situados no Oceano Pacífico sumam do mapa e aproximadamente 70% da população do planeta, que vivem nas zonas costeiras, sejam de alguma maneira atingidos. Somente em Bangladesh, 71 milhões de pessoas (60% da população) que vivem em áreas de baixada serão obrigadas a mudar de endereço.

As previsões vão além. Com a elevação da temperatura, só haverá gelo daqui a cem anos em alguns pontos isolados do Alasca, da Patagônia e do Himalaia. Os mosquitos transmissores de doenças típicas de países tropicais, como  malária e dengue, migrarão para países de clima temperado, como a Argentina (onde já foram detectados focos de Aedes egypti) e Estados Unidos. Os corais que servem de abrigo para peixes e crustáceos, já estão morrendo por causa do calor. Sensíveis à mudança de temperatura, os microorganismos que dão cor aos recifes de coral estão desaparecendo. Um quarto dos corais do mundo já morreu; o resto deverá desaparecer nos próximos 50 anos. O ciclo das chuvas sofrerá alterações, prejudicando a agricultura e os países que dependem de energia hidroelétrica, já que a calibragem das represas estará sujeita a um clima em progressiva desordem.

O relatório do painel foi produzido ao fim de um século em que a temperatura se elevou 0,6º C, tendo sido o ano de 1998 o mais quente da História (desde que as medições se iniciaram, em 1860). Para uma expressiva parcela da comunidade científica, o agravamento dos cataclismos ambientais (nevascas, enchentes, furacões, secas, ventanias) que vem causando tantos transtornos pelo mundo é atribuído ao efeito estufa.

"Eu acho que ainda não há um convencimento da seriedade do problema e do tamanho das transformações pelas quais nós teremos que passar nos próximos anos", afirma o presidente da Agência Espacial Brasileira e um dos integrantes do Painel da ONU, Gylvan Meira. Na última Conferência do Clima, em Haia, todas as discussões envolvendo mudança de matriz energética e redução progressiva das emissões de gases de acordo com o Protocolo de Kyoto fracassaram. Os Estados Unidos, que são o maior emissor de CO2 do mundo, se recusam a reduzir a quantidade de fumaça lançada na atmosfera sem que os países em desenvolvimento - China, Índia e Brasil principalmente - também o façam. Só que o Protocolo de Kyoto restringe esse compromisso aos países industrializados, que são historicamente os maiores e mais antigos poluidores do planeta. Aí reside o maior de todos os impasses.

Para o jornalista e ambientalista Washington Novaes, não há outra opção senão a busca de um entendimento: "É preciso que isso tenha continuidade, que o futuro da espécie humana esteja assegurado, e as mudanças climáticas são certamente a maior ameaça que pesa sobre a espécie humana."

Mas o fracasso de Haia levou o chefe da delegação brasileira na Conferência, Ronaldo Sardenberg, ministro da Ciência e Tecnologia, a deixar a diplomacia de lado e declarar-se pessimista em relação ao próximo encontro, no mês de maio, em Bonn. "Se nós fossemos realizar a reunião de maio amanhã, eu não hesitaria hoje em vaticinar o fracasso. Não diria, como disse antes de Haia, que estava um pouco otimista. Diria que estou muito pessimista."

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