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Acendem-se de novo os refletores da comunicação sobre a Amazônia, com as notícias das primeiras queimadas na área. E as reações dos fazendeiros do sul do Pará - que ameaçam demitir quase 50 mil pessoas se o Ibama não suspender a operação de fiscalização do corte de madeira que desencadeou na área e não voltar a autorizar queimadas - já mostram quão difícil será o controle. Isso num ano que promete ser excepcionalmente quente e favorável à disseminação de queimadas no chamado "arco do desmatamento", que vai do Pará a Rondônia.
É certo que afinal o governo federal está investindo em equipamentos de controle e já se consegue sobrepor fotos de satélites aos mapas gerados pelo georreferenciamento para, assim, identificar com precisão os locais dos focos de queimadas. Mas tanto as pressões da natureza quanto as humanas tornarão muito difícil a tarefa. Faltam equipamentos e pessoal para o combate direto ao fogo. E 1997 já entrou para a lista dos anos de temperatura mais alta da História, aliando fatores naturais (El Niño) e ações humanas - como advertiu há poucos dias o vice-presidente norte-americano, Al Gore, com base em dados do International Institute for Environment and Development e da Organização Meteorológica Mundial. Pela terceira vez nesta década foi quebrado o recorde de temperatura mais alta. Nove dos anos mais quentes na Terra - desde que se têm registros de temperatura - ocorreram de 1980 para cá.
Não é só. Uma expedição científica do Greenpeace alertou há poucos dias para a forte retração e redução de espessura na camada de gelo no Ártico - por causa do aumento da temperatura. Ao mesmo tempo, seu diretor de Política Climática, Bill Hare, divulgou estudo lembrando que continuamos a mandar para a atmosfera 6 bilhões de toneladas/ano de carbono sob a forma de CO2 gerado na queima de combustíveis fósseis (carvão, petróleo, gás), o que é a principal causa do chamado efeito estufa (outros estudos falam em 4,5 bilhões). A queima de combustíveis fósseis continua a crescer 2% ao ano (o que significa dobrar em 34 anos). E, se o ritmo não for arrefecido, no próximo século poderão ser emitidos para a atmosfera até 1.500 bilhões de toneladas de poluentes, dos quais entre 30 e 95 bilhões serão produto de desflorestamento. Ou seja, no próximo século a emissão de poluentes poderão ser, no mínimo, dez vezes maior que todas as emissões registradas desde o início da revolução industrial, há quase um século e meio. Ainda assim, os EUA (mas não apenas lá) continuam a subsidiar sua indústria petrolífera, com mais de US$ 35 bilhões/ano, segundo as estimativas.
Vai-se conseguir cumprir o acordo acertado em Kyoto, em dezembro, que exigirá um corte significativo sobre as emissões registradas em 1990, sabendo que ele exigirá fortes mudanças nas matrizes energéticas dos países industrializados e/ou reduções na produção baseada em fontes poluentes? Os EUA, que ainda não ratificaram o Protocolo de Kyoto, estão propondo ao Congresso que aprove projeto de estímulos, no valor de US$ 6,3 bilhões, ao desenvolvimento de produtos, transportes e energia "limpos". Em outros países industrializados, algumas medidas na mesma direção continuam em estudo. Com todos os países muito cautelosos, olhando o que os outros fazem, para não perder competitividade na produção que depende da queima de combustíveis fósseis.
Há poucos dias, reuniram-se em Bonn diplomatas e representantes dos países signatários da Convenção sobre Mudanças Climáticas, para estudar a regulamentação dos pontos acordados em Kyoto, principalmente do chamado "mecanismo de desenvolvimento limpo" - isto é, formas pelas quais um país poderia deduzir de suas emissões a poluição evitada por projetos que ele financie em outros países e reduzam as emissões globais.
Não será fácil chegar a um acordo. Praticamente todos os países concordam com mecanismos que obviamente possam contribuir para uma redução real de emissões. Por exemplo, trocar lâmpadas incandescentes por fluorescentes, de modo a reduzir o consumo de energia gerada numa usina termoelétrica movida a carvão. Mas a controvérsia se acende - como se acendeu em Bonn - quando alguém pretende descontar de suas emissões o carbono que deixa de emitir não desmatando uma área florestal.
As questões econômicas em jogo são muito altas. Para reduzir as emissões em 5% sobre os níveis de 1990 será preciso baixar as atuais emissões em cerca de 900 milhões de toneladas de carbono por ano - ou seja, cerca de 20% das emissões registradas no Anexo 1 do protocolo. Como o custo da redução de uma tonelada é estimado em US$ 100, isso quer dizer um custo total entre US$ 90 bilhões e US$ 100 bilhões.
Até novembro, quando haverá nova reunião plenária em Buenos Aires os grupos de trabalho formados em Bonn terão de formular propostas. Mas não haverá decisões na Argentina, já se sabe, porque todas as questões são muito complexas.
De qualquer forma, cientistas e diplomatas, embora não excluam a hipótese, pensam que dificilmente serão aprovadas fórmulas evidentemente desonestas para o "desenvolvimento limpo", como as que permitiriam à Federação Russa e à Ucrânia - que reduziram muito suas emissões, por causa do declínio econômico nos últimos anos - vender a países industrializados o "direito" de aumentar as suas emissões. As discussões em Bonn teriam mostrado que a maioria não aceita esse tipo de mecanismo. Ele seria, de fato, uma licença para poluir.
A proposta brasileira, aprovada em Kyoto, de calcular a responsabilidade de cada país nas mudanças climáticas somando suas emissões "históricas" (ao longo do tempo) com as atuais, para verificar que influência tiveram e tem no aumento da temperatura do planeta, está sendo analisada agora em termos científicos pelos chamados órgãos subsidiários da convenção. Por essa fórmula, a responsabilidade brasileira no aumento da temperatura seria de 0,4%, bem menor que o nível das emissões atuais (cujo inventário ainda está em processo). Ao que tudo indica, a fórmula tem chance de obter aprovação definitiva, uma vez que teve sinalização favorável de países e instituições que em geral têm visões opostas ou muito diferenciadas - EUA, União Européia, China, Austrália, Greenpeace.
É possível até que antes mesmo de Buenos Aires haja novos progressos, na reunião científica internacional para discussão desse e de outros temas que o Brasil promoverá, em agosto, na cidade de São José dos Campos.
Enquanto isso, será muito saudável se a comunicação em geral se mantiver atenta em torno do tema. Se não for assim, os avanços serão muito difíceis. Porque desinformação, esperteza e até truculência não faltam. Basta ver as notícias recentes do Pará, o bombardeio de contra-informação dos lobbies das indústrias poluidoras e tentativas como a de oficializar a possibilidade de comprar dos russos e ucranianos licenças para poluir. |