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"Operação Rodízio"

A operação rodízio foi uma atividade de preservação da saúde e de reconquista da cidadania urbana. Mais do que um mero exercício de trânsito, foi um marco na reflexão íntima de cada um a respeito da necessária defesa do meio ambiente nas regiões metropolitanas.

A constatação mais importante: apesar de não termos nos preparado para as mudanças que a modernidade impõe, ainda resta um grande espírito de cidadania a ser partilhado entre nós. Esta é a lição que não deve ser esquecida.

Nunca tivemos dúvidas a respeito da necessidade da operação para a melhoria das condições de saúde da população. Todos os indicadores demonstram que a situação é insustentável: o ar em São Paulo está absolutamente saturado.

Prova disto foi o pico de ozônio registrado em 30 de julho na estação Lapa da Cetesb (Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental). Em pleno domingo, foram 760 microgramas/m3 de ozônio na baixa atmosfera, marca cinco vezes superior à recomendada pela Organização Mundial de Saúde.

O que nos preocupou é que esse pico aconteceu em um dia de baixa circulação de automóveis. O ozônio é uma substância altamente nociva às crianças e aos trabalhadores que exercem atividades sob o sol. Causa desde irritação nos olhos até agravamento de doenças respiratórias e cardiovasculares. A concentração de ozônio naquele dia foi uma advertência. Mas não foi só isto que nos levou a agir.

Há indicadores seguros, segundo estudos da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, de que a exposição às condições atuais da atmosfera de São Paulo pode causar a morte.

A população nas faixas etárias de até 5 anos e acima de 65 anos é a mais suscetível. Há uma relação direta entre as taxas de mortalidade por doenças respiratórias e os níveis de poluição urbana.

Há uma verdadeira "sopa" de poluentes no ar de São Paulo e grande parte destes saem dos escapamentos dos veículos, atacando organismos fragilizados. Estas evidências exigiam uma decisão como a que foi tomada.

Não era preciso ser um adivinho para saber que as condições tendiam a piorar. O que se verifica nos últimos tempos é que está ocorrendo uma banalização dos problemas de saúde que a população sofre em razão da poluição: aceitamos como normais o número crescente de pessoas doentes. Seria pura irresponsabilidade do governo do Estado não tomar providências sérias por meio de sua Secretaria do Meio Ambiente após essa constatação. Sobretudo em razão de termos competência legal para agir nestes casos.

Nossa dúvida, no entanto, era se a população aceitaria a sugestão de deixar seu automóvel em casa uma vez durante o decorrer de uma semana. É importante lembrar que não houve multas, tratando-se de uma ação de natureza pedagógica. Era uma proposta arriscada, principalmente por enfrentar o tão famoso mito do automóvel, símbolo universal de status social.

O apelo foi aceito por um número expressivo da população: o balanço final mostra que aproximadamente 40% dos usuários de carros particulares adotaram a medida. Trata-se de 1 milhão de proprietários de automóveis que mudaram suas rotinas para, abrindo mão de sua comodidade direta, deixar claro que algo precisa ser feito pelo ar da cidade.


1 milhão de motoristas deixaram claro que algo precisa ser feito pelo ar da cidade


Chego a afirmar que foi a maior demonstração de cidadania dos últimos tempos. Não só de quem participou do rodízio, mas de todos aqueles que possibilitaram essa grande ação a custo zero para o Estado, sejam entidades privadas, sejam outros órgãos públicos como, por exemplo, a Defesa Civil e a Polícia Militar. E isto aponta para a absoluta responsabilidade das autoridades públicas no sentido de apresentar soluções para esse problema e viabilizá-las.

É preciso que o governo como um todo, federal, estadual e municipal, apresente uma proposta digna para esta população tão consciente de seus desejos. A operação rodízio foi o início destas ações. De nossa parte, temos tomado outras medidas: só no ano de 1995 foram autuados, pela CETESB, 17.044 veículos a diesel, sendo 12.528 no mês de agosto, contra 2.067 autuações em 1994, o que indica um aumento de 724% de um ano para outro.

Mas é preciso muito mais. Devemos urgentemente aprofundar o debate público a respeito do ambiente urbano que queremos, visando discutir as alternativas possíveis. O transporte coletivo é uma delas. Espanta, sob esta ótica, que ainda hoje a cultura do desperdício na adoção prioritária do transporte individual encontre tanta guarida social, em contraposição a alternativas que deveriam mobilizar toda a comunidade.

Enquanto nas grandes cidades do mundo se discutem formas de viabilizar o transporte coletivo ao centro das cidades, em São Paulo discute-se a criação de garagens subterrâneas no próprio centro para que os carros particulares possam lá estacionar.

Outro tema importante é a matriz energética: precisamos analisar o impacto que os combustíveis adotados acarretam no meio urbano e propor alternativas. O uso do gás nos ônibus já é uma realidade e, aparentemente, não está sendo incentivado.

Aos que não adotaram o rodízio restou, sem dúvida, um mal-estar, fato que ficou patente nas diversas panfletagens que participei. Estas pessoas, quase sempre, se davam desculpas por não estarem apoiando as medidas tomadas. Esperamos que na próxima ocasião estas pessoas reflitam um pouco mais a respeito da saúde das gerações futuras.

Cidadania se aprende na prática e não adianta esperar que o outro a exerça primeiro. É como aprender a andar de bicicleta: de nada vale ficar observando e achando que tudo aquilo é muito fácil.

Grande parte da população da região metropolitana de São Paulo provou, por ato voluntário, que está preparada para enfrentar esses temas. Parabéns, nossa saúde e o meio ambiente agradecem!

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